Zico faz ponte para Chape, que recebe doações e convite de liga japonesa

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O presidente da J-League, a liga de futebol profissional japonesa, Mitsuru Murai, desembarcou em Chapecó no início da tarde desta sexta-feira acompanhado de Zico. A dupla participou de uma reunião com dirigentes da Chapecoense ainda no aeroporto da cidade. Ídolo nos dois países, o ex-jogador fez a ponta entre o clube catarinense e o dirigente asiático.  Após a reunião, o mandatário japonês foi para Porto Alegre.

– Me dá prazer e satisfação grande poder ajudar nesse sentido. O presidente da J-Lague está fazendo campanha no Japão para dar uma contribuição à Chapecoense no reerguimento da equipe, e fiz essa ponte. Liguei para a direção para poder trazê-los aqui. Japonês, você sabe como é, tudo muito rápido, não deu para conhecer o clube. Ficamos em reunião no aeroporto – disse o Galinho.

Galinho ainda cumpriu agenda no Oeste até o fim do dia: conheceu a Arena Condá, deu uma volta no campo e ganhou uma camisa alviverde com seu nome. Ainda no aeroporto, Zico falou com exclusividade ao GloboEsporte.com sobre os assuntos tratados na reunião, que contou com a presença do presidente da Chapecoense, Plinio David de Nes Filho, do vice Ivan Tozzo, do prefeito municipal Luciano Buligon e do diretor de marketing da Chape, João de Nes.

– Estão fazendo coleta em diversos jogos da J-League, torcedores depositando alguma coisa e tem um belo valor. E como a Chapecoense vai jogar lá dia 15 de agosto (pela Copa Suruga), vamos fazer campanha até lá e chegar e entregar o que foi arrecadado. Convidaram o sub-18 para participar de uma competição lá também, enfim, para estreitar mais os laços.

Depois de deixar o terminal aéreo, Zico foi até a Arena Condá, onde recebeu uma camisa da Chape com seu nome. O ídolo aproveitou para conhecer a estrutura do estádio e caminhar no gramado. Galinho também concedeu entrevista coletiva. Entre os assuntos abordados, falou sobre a reconstrução da Chapecoense, a fase da seleção brasileira e a sua relação com o Flamengo.

onfira os principais trechos da coletiva

RECEPÇÃO EM CHAPECÓ
A melhor possível. Cidade não deu para ver muito, mas é muito limpa, muito cuidada. Fico feliz por isso, agradecido. Acho que a reconstrução é lenta, mas acredito que toda força e a energia positiva, que todo o país lança para a Chape, pode dar ânimo para que qualquer um que represente a Chapecoense não se sinta sozinho. Às vezes, situações como essa, podem no futuro dar uma vida para o clube e ninguém quer que seja da forma como aconteceu, mas temos que entregar sempre a Deus. Ele que sabe nossos destinos.

FUTURO DA CHAPE
Pelas entrevistas que vi e as pessoas que comandam, entrevistas muito tranquilas, muito pé no chão, sabendo o que querem, é por aí. Nada de afobação. Trabalhar profissionalmente, oferecer as melhores condições de trabalho a quem está aqui. O profissional quando vai para um lugar que se sente feliz, ele dá resultado.

CARINHO COLOMBIANO
Fica marcado, são famílias que tinham sonhos, desejos. As coisas deveriam sempre ser resolvida através do esporte em si. Foi um exemplo grande que foi dado por muita gente, principalmente dos colombianos, o que eles fizeram. Nós brasileiros sempre seremos gratos. Para mim não foi surpresa. Já rodei a América do Sul e a Colômbia sempre fui bem recebido. O carinho que eles têm pelo brasileiro é muito grande. Não foi surpresa para mim o gesto deles. É uma lição importante.

JOGO DAS ESTRELAS
Por outros compromissos, não pude vir entregar o cheque do Jogo das Estrelas, mas boa parte foi entregue às famílias das pessoas que estavam naquela fatalidade. Infelizmente não pôde ser mais por causa da situação do Maracanã. Para fazer o jogo, gastamos para deixar o estádio com condições de receber o evento. Tudo saiu bem e pudemos fazer homenagens dentro de nossas possibilidades.

JOVENS JOGADORES
Você não consegue resultado só com jovens, nem só com jogadores experientes. Tem que ver com carinho aqueles que não vão sentir a parte psicológica de substituir os ídolos que estavam aqui antes. O Mancini tem as experiência para dosar isso, estando ali no dia a dia observando. Não é uma norma na Europa, principalmente, treinar com as categorias de base. Eu gostava de fazer os treinamentos contra eles. E foi dali que revelei muita gente. O Edu, que sempre foi meu braço direito, olhava os jogos e dizia “aquele ali tá pronto, pode colocar” e eu fui muito feliz. Tem jogadores que hoje estão nas seleções de seus países e nós lançamos com muita coragem.

RIVALIDADES NO BRASIL
Nós aqui no Brasil temos nossa rivalidades, mas a rivalidade tem que ser dentro de campo e não fora. As torcidas, os clubes, os presidentes têm a responsabilidade de cada vez mais de tocar nesse assunto, se juntar e não se separar. Como eu vejo hoje lá no Rio de Janeiro, presidentes não se falarem porque contratou um ou outro jogador, jogador quis ir para outro clube. Eles têm que passar por cima, porque isso reflete no torcedor. Estamos cansados de ver mortes nos estádios e não queremos mais isso.

FIM DO HUMOR
Nós perdemos o humor, não só no futebol, mas na vida. Quando se tem humor, ninguém fica chateado. Hoje o humor está levando a brigas. Hoje ninguém pode falar nada, as pessoas estão muito intolerantes. Isso de colocar a mão na boca pra falar porque tem uma câmera te filmando no jogo, é inadmissível. De ficar se policiando, preocupado se tem alguém te filmando quando está tomando uma cerveja. Nós somos seres humanos, temos o direito de ir em uma festa e tomar uma bebida que gostamos. Tem o dia do profissional. Se eu fizer isso em um momento que estou sendo profissional, ai pode ter cobrança, mas quem tem que cobrar é o clube, que está pagando. Mas hoje é o cara que está rua que te cobra, parece que não pode fazer mais nada.

SER TÉCNICO NO BRASIL
Eu nunca tive sonho de dirigir uma equipe brasileira. Quando saiu o Vanderlei Luxemburgo do Palmeiras, o (José Carlos) Brunoro me ligou e eu me surpreendi, porque não pensava em ser treinador, ele me disse que antes de contratar um técnico, ele queria me convidar. Eu disse, convidou a pessoa errada (risos), porque não sabia que ia virar treinador também. Em nenhum momento quis ser técnico no Brasil, principalmente por causa do Flamengo. Flamengo então, nem pensar. Eu acho que poucos jogadores tiveram uma carreira tão ligada a um clube como eu tive com o Flamengo. Então enfrentar o Flamengo, é muito difícil. Não dá, é uma ligação muito forte. Poucos ficaram 20 anos em um clube como eu fiquei, é minha segunda casa.

TITE
O Telê (Santana) foi o melhor que pude ser dirigido. Mesmo sendo duro, disciplinador, turrão, mas quem cumpria com o dever ele não perturbava. Você chutava dez bolas, errava uma e ele vinha reclamar. Mas quando você tem um treinador assim, tem que dar graças a Deus, porque é o treinador que está olhando você. Ele me ensinou que se você melhora individualmente, você vai melhorar para a equipe. Eu acho que o Tite caminha pra esse lado. Claro que com muito mais tecnologia, com mais condições, com equipe de trabalho. Na nossa época era intuição, hoje é diferente. O Tite se preparou para chegar nesse cargo. Quando acabou a Copa já deveria ser ele. Nada contra o Dunga, mas tem que ser o melhor, e o Tite era vencedor de tudo. Perdemos dois anos com o Tite fora. Mas ainda dá tempo. Chegou e mudou o espírito. Ele apostou em jogadores que confia, que muitos não chamariam. Fico feliz de ver o sucesso dele. Espero que a gente vença a Copa do Mundo para apagar a impressão do 7×1 também na Europa.

Globo Esportes